Se pensamos que o céu é nada mais que um lugar escondido onde nos converteremos em anjinhos rechonchudos que sempre saltam pelas nuvens enquanto tentam tocar suas harpas, e se ao mesmo tempo pensamos que o inferno é simplesmente um lugar, só um pouco quente, onde passaremos uma eternidade com os prazeres dos quais não tínhamos podido desfrutar no mundo, não vamos encontrar as forças necessárias para a luta, para carregar a cruz com Cristo.

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Homilia: Levantai-vos, Não Temais
Padre Daniel Heenan 2 março, 2015

Encontrei um blog escrito por um pastor protestante onde conta que já está aborrecido pelo conceito de céu e do paraíso. Em outro lugar que encontrei, o autor, um ateu, caçoa do conceito de céu e diz, “mesmo sabendo que o céu não existe e não é nada mais que um conto para crianças, de todo modo, mesmo se existisse, não me pareceria muito interessante. O inferno, se existisse, seria mais divertido.”

O evangelho nos diz: “seis dias depois, tomou Jesus consigo Pedro, Tiago, e João seu irmão e subindo com eles sós a um alto monte, se transfigurou em sua presença.”

Deu-lhes este preciosíssimo dom, uma visão do que experimentaremos se primeiro compartilhamos a cruz com ele. Ainda no meio desta formosa revelação, se encontra à sombra do calvário. Moises e Elias apareceram ali com ele, e do que falavam? “de sua morte que havia de se cumprir em Jerusalém.” Depois, quando desceram do monte, o Senhor lhes ordenou que não dissessem a ninguém o que haviam visto até que Ele houvesse ressuscitado da morte.

A igreja nos propõe este evangelho no segundo domingo de quaresma para nos animar a perseverar na luta que temos começado. A razão para isto é muito simples. Não se pode começar uma viagem, se não se conhece bem o destino.

Então o Senhor subiu o monte Tabor com seus três discípulos preferidos, os mesmos que seriam também testemunhas de sua agonia no horto das oliveiras. Por ter visto este indício da glória futura, poderiam aguentar melhor os sofrimentos que são os meios necessários para obtê-la.

A igreja hoje faz o mesmo por nós. Devemos considerar a glória eterna para sermos animados para lutar durante a quaresma. Talvez o protestante tenha admitido seu fastio pela ideia do céu, nunca tenha avançado além de um entendimento infantil das coisas divinas. Se pensamos que o céu é nada mais que um lugar escondido onde nos converteremos em anjinhos rechonchudos que sempre saltam pelas nuvens enquanto tentam tocar suas harpas, e se ao mesmo tempo pensamos que o inferno é simplesmente um lugar, só um pouco quente, onde passaremos uma eternidade com os prazeres dos quais não tínhamos podido desfrutar no mundo, não vamos encontrar as forças necessárias para a luta, para carregar a cruz com Cristo.

Aristóteles e São Tomás dizem que o fim ou a meta tem que ser a primeira coisa nas nossas intenções ou seja, sempre agimos por algum fim. E o fim último, o fim que não está no serviço de nenhum outro, que não é meio, mas o fim tal qual, é a felicidade. Não existe ninguém que não a queira. Não é possível que uma pessoa possa agir para qualquer outro fim. Além disso, a felicidade que queremos, não é algo parcial nem temporal. Queremos ser felizes ao máximo que for possível e sem temor que nossa felicidade se acabe.

No mundo não alcançaremos este tipo de felicidade. Porém, pela fé temos a certeza de que esta não será a última palavra.

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Disse São Paulo: “Nem olho algum viu, nem ouvido ouviu, nem passa no pensamento do homem, quais coisas tem Deus preparadas para aqueles que lhe amam.”

Este é o céu, a promessa inefável que Deus garante aos que perseveram até o fim, que por amor carregam suas cruzes junto com Cristo.

Assim o descreve Santo Afonso:

“Irmãos, trabalhemos durante o que nos resta de nossas vidas para ganhar o céu. O céu é um bem tão grande que, para o comprar para nós, Jesus sacrificou sua própia vida na cruz, se assegurou que de todos os tormentos dos condenados no inferno, o pior vem do fato de terem se dado conta que perderam o céu por sua própria culpa.”

A razão então para esta vista da glória atrás do véu, tanto para nós como para os discípulos, é que sabendo a finalidade, podemos seguir adiante mais facilmente.

Digamos então com São Pedro: “bom é ficarmos aqui”, e considerando o céu, fiquemos mais motivados para fazer tudo que for necessário.

O primeiro gozo dos que entram no céu é a visão beatífica. São Tomás disse que a união com Deus é a felicidade fundamental do céu. Santo Agostinho disse: “Em Deus temos o compêndio de todos os bens. Deus é nosso sumo bem. Não devemos ficar mais abaixo nem buscar mais acima. A primera coisa seria perigosa; a seguinte, impossível.”

Cada alegria, cada delícia, e cada felicidade que podemos buscar nesta vida tem sua consumação em Deus.

São Paulo disse: “No presente não vemos a Deus senão como em um espelho e sob imagens escuras, mas então lhe veremos face a face. Eu não lhe conheço agora senão imperfeitamente; então lhe conhecerei com uma visão clara na maneira que sou conhecido.”

No momento em que se entra na glória, Deus dá ao bem aventurado uma graça especial, a ‘lumen gloriae’, a luz da glória para possibilitar um gozo de Deus que supera todas nossas capacidades naturais. Veremos Deus por meio de Deus.

Na alma de Nosso Senhor, por ser Filho de Deus, desde sua concepção no seio de Maria até sua morte, sepultura e descida ao inferno sempre estava presente esta visão beatífica. Este mistério é incrível de considerar. O Padre Mateo comenta que na realidade a transfiguração de Cristo não foi tão milagrosa. Foi natural que a glória que habita sempre em sua alma se manifestasse também exteriormente. O mais milagroso foi que durante a maior parte de sua vida, como faz também agora no Santíssimo Sacramento, manteve esta glória oculta para se acomodar as nossas capacidades, especialmente durante a agonia de sua paixão. Como podia sofrir um coração que gozava a plenitude da felicidade? Como podia ter dito no Horto?

“minha alma está triste até a morte; fiquem aqui, e velem comigo”

Só pela imensidade de seu amor, que quer compartilhar plenamente conosco no céu, pois, diz o livro do apocalipse: “E limpará Deus toda lágrima dos olhos deles; e a morte não existirá mais; e não haverá mais pranto, nem clamor, nem dor: porque as primeiras coisas passaram.”

Teremos além disso a promessa da ressurreição final, quando ressuscitarão nossos corpos para participar no gozo de nossas almas e quando será aperfeiçoada a justíça no juízo final. Santo Afonso explica:

“A alma verá que todas as tribulações, a pobreza, as enfermidades, e as perseguições que considera como infortúnios na verdade procedem do amor e são os meios empregados pela Divina Providência para levá-la à glória. Verá todas as luzes, as chamadas carinhosas, as misericórdias que Deus lhe concedeu depois de tê-lo insultado com seus pecados. Desta montanha bendita do paraíso verá tantas almas condenadas por menos pecados que os que ela tinha cometido e se dará conta de que ela mesma foi salva e está segura contra a possibilidade de jamais perder Deus”, e com esta confiança, por fim, descansará.

De fato, “Bom é ficarmos aqui!” como disse São Pedro quase como embriagado por seu êxtase. Este é o mesmo fato de antes, que ao ver o milagre da pesca abundante de peixes, protestou “aparta-te de mim, Senhor, porque sou um pecador.” E não imaginaríamos que agora sentiria ainda mais sua indignidade ou, talvez tenha começado a entender que é precisamente porque somos pecadores que Deus nos tem tanta condescendência e nos tem mostrado tantas belezas de sua misericórdia.

E nós, não devemos dizer o mesmo? Que bom ficarmos aqui! Porque recordamos que mesmo tendo muito que sofrer, temos recebido muito mais bênçãos. Nos deu a vida da graça no batismo, que é a semente da glória. Em verdade é o início da vida do céu. Ele nos deu sem nenhum mérito nosso. Depois quando pisoteamos seu dom ao pecar, nos oferece outra vez, e ainda mais porque quando nos confessamos sinceramente e nossa contrição é intensa, São Tomás ensina que o Senhor não somente nos restaura a graça, mas a fortalece, e também pode aumentá-la.

a eternidade

Por isso disse São Bernardo: “Se é tão doce chorar por ti, como será alegrar-se em ti”.

De veras, que bom estar aqui! Aqui na Santa Missa, que é uma transfiguração nova, porque nos revela a doçura de viver junto com Ele. Aqui não só brilha sobre nós com um raio de sua glória como fez no Tabor, também nos alimenta com Ele mesmo, já ressuscitado e vivendo na glória. Aqui nos dá diariamente a antecipação da glória inefável. A consumação pela qual se deve esperar.

“Abre, pois, agora os olhos de tua alma”, disse São João Crisóstomo, “e veja aquele espetáculo, formado por aquilo que é muito mais para estimar do que as pedras preciosas, que os raios solares e de todo resplendor visível; não somente por homens, mas pelos que são muito mais dignos de apreço que eles, por anjos, arcanjos, tronos, dominações, principados, potestades. Que em torno do Rei, nem pode dizer que isso é.

Tanto é que sobrepuja toda palavra e pensamento aquela formosura, aquela beleza, aquele resplendor, aquela glória, aquela majestade, aquela magnificência. E diga-me: nós temos de nos privar de tantos bens por não padecer um pouco de tempo? Mesmo se fosse necessário padecer milhares de mortes cada dia, mesmo no próprio inferno, para ver Cristo vir em sua glória e ser alistados no número dos santos não conviria tolerar tudo? Ouça, o que disse o bem aventurado São Pedro: “Que bom ficarmos aqui!“

Padre Daniel Heenan, FSSP
Membro da Fraternidade Sacerdotal San Pedro. É vigário da quaseparóquia pessoal de San Pedro em Cadenas em Guadalajara, México

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